Embora quase 90% dos jovens portugueses admitam já ter votado pelo menos uma vez, apenas 22.7% participaram ativamente em campanhas eleitorais. Os dados provêm de um inquérito do Centro de Estudos de Desenvolvimento Humano da Universidade Católica Portuguesa, realizado em 2023, e demonstram uma assincronia entre o exercício do direito de voto e o envolvimento político ativo e voluntário da juventude.
Embora a falta de envolvimento político ativo dos jovens me entristeça, consigo compreendê-lo. A descrença na política nacional é uma herança intergeracional da qual também eu padeci e, alegremente, digo que há cura. Durante cinco anos fiz parte desses 90%, até decidir transformar a minha insatisfação com o rumo que Portugal tomava, em ação. A princípio, talvez por não ter um percurso académico em política, subestimei a minha voz e, consequentemente, o meu contributo ao projeto liberal. Arrisquei, ao sair da zona de conforto e rapidamente percebi que tinha o essencial – esperança. Foi logo na primeira cruz que desenhei numa cabine de voto que a conheci, ao eleger o primeiro deputado liberal para a Assembleia da República, João Cotrim de Figueiredo. Em todo o cinzentismo que me rodeava, vi ao longe um pequeno ponto azul que, ao contrário do que diziam as ‘pessoas cinzas’, fazia ecoar a minha voz na casa da democracia. Eu apenas ofereci a minha cruzinha num papel, ele inspirou-me, deu-me esperança. Esse combustível cada vez mais parco na política portuguesa, porém único capaz de redirecionar Portugal no caminho certo.
Foi a partir desta conclusão que dei o primeiro passo no voluntariado político ao juntar-me ao grupo de jovens liberais no expositor da IL na edição de 2025 da Futurália. Os poucos turnos que constavam no meu horário foram alargando até acabar por preencher todos os dias do evento. O sentimento de missão foi aumentando à medida que me identificava com os mais jovens por serem cidadãos conscientes e com interesse em se envolverem politicamente, porém perdidos sobretudo quanto ao seu sentido de voto, especialmente os que atingiam agora a maioridade. Também eu, no meu primeiro voto, me encontrei nessa desconcertante descoberta e, por isso, sabia exatamente que respostas buscavam. Estas interações corroboraram a perceção que tinha sobre a iliteracia política em Portugal, tanto a nível ideológico como no conhecimento da estrutura e funcionamento das instituições democráticas. Ralf Dahrendorf dizia que “uma porta aberta não é liberdade para quem não sabe que ela existe, ou não tem meios para a atravessar”, demonstrando que a liberdade não se resume à existência formal de direitos, exige também conhecimento, assim como outras condições, para que esses direitos possam ser efetivamente exercidos. Durante a Futurália, senti que não só lhes revelava essa porta como lhes indicava o caminho e lhes explicava como a poderiam atravessar, sem nunca os dissociar de si mesmos. Cada interação que tinha, reiterava a importância de ali estarmos — trabalhávamos para o liberalismo, para a democracia e principalmente para a liberdade.
É essa esperança, aliada à confiança no projeto que defendo e nas pessoas que o integram, que me movem a propalar a ideologia liberal, quer num expositor de um evento, quer a percorrer o país em campanha. No mesmo ano, integrei o grupo de voluntários na campanha legislativa, e a interação com o eleitorado reforçou o sentimento de realização pessoal, ao perceber que estava no sítio certo a contribuir direta e ativamente para o que realmente acredito. A interajuda da nossa equipa que não olha a idades ou a cargos, a troca de olhares e sorrisos que transmitiam um ‘acelera’ sempre que o cansaço tentava falar mais alto ou as amizades únicas criadas em ambiente igualmente singular, relembram a razão pela qual aqui continuamos. Independentemente das nossas origens ou características, trabalhamos para o mesmo e entoamos em uníssono a mudança em que acreditamos. Num ambiente propenso a pressão e a cansaço com várias horas de viagem de autocarro a serem partilhadas, a proatividade e união da equipa é fundamental para o sucesso das ações de campanha. Tive a sorte de estar sempre rodeada pelo grupo certo, que muito contribuiu para o meu crescimento pessoal e prático que tenho vindo a aplicar desde então.
Finalizo sempre cada campanha eleitoral de modo gratificante, num tom geral por contribuir para algo maior e, especificamente, por ter a consciência que é uma oportunidade única de conhecer o país e aprender efetivamente como este é composto. As campanhas pelo país permitem explorar o território português, acabando por visitar regiões que não conheceria de outra forma, e ainda por conhecer pessoas e os seus negócios de forma tão pormenorizada e pessoal que não seria possível noutro contexto. São ganhos talvez pífios para quem observa de fora, porém muito enriquecedores para quem está no terreno.
Embora se confirme uma inação persistente na participação política dos jovens portugueses, é insofismável a importância deste género de voluntariado. O que a experiência prática me mostra, é que a forma mais direta e eficaz de despertar o interesse político nos mais jovens e ainda, de os trazer ativamente para o centro da ação política, é através da partilha de conhecimento e da escuta ativa no que toca às suas dúvidas ou grandes preocupações. Também se revela bastante eficaz nas restantes franjas do eleitorado, pois ninguém é mais convincente do que alguém informado que acredita efetivamente naquilo que diz, características indispensáveis nesta atividade.
Como voluntária, enche-me de orgulho saber que contribuo para o aumento desses 22.7% correspondentes à participação voluntária, sempre que ajudo alguém a integrar a causa liberal. Principalmente porque sinto que fiz a diferença ao agir perante a minha desilusão e inconformismo face ao estado em que Portugal se encontrava (e ainda se encontra!), e sei que essas pessoas o farão igualmente. A melhor recompensa que posso receber, e onde reside verdadeiramente a minha motivação, é na certeza que contribuo diariamente para um país mais informado, democrático, livre e liberal.