Os números avançados pela Federação Académica do Porto são derradeiros: 73% dos jovens universitários do Porto pensam emigrar após concluirem os seus estudos. Nós, os jovens, há muito que sentimos a realidade destes números na pele. São um reflexo de um país que parece que, como um pouco em tudo, nos quer empurrar para fora — nos empregos, nos impostos, nos salários... e até na política. Neste mandato autárquico que agora inicia temos uma oportunidade única para lutar por fazer a diferença.
Nos cerca de 3 anos que venho a acompanhar o trabalho dos eleitos da Iniciativa Liberal já ouvi um pouco de tudo vindo das outras bancadas em resposta aos nossos jovens autarcas e deputados: "já aprendeste isto?", "ainda és novo...", "quando tinha a tua idade...". É em momentos como este que mais empatizo com a coragem de todos os que, antes de mim, ousaram encabeçar uma candidatura por um projeto em que acreditam. O gosto amargo que estas palavras deixam tanto no seu recetor, como nos muitos jovens que querem contribuir para um país melhor, parece corroborar que, também na política, este país não é para jovens.
A proposta de reflexão que eu deixo a quem se sente desmotivado a dar a cara por causas em que acredita ao ver o tratamento que outros semelhantes recebem é a seguinte: olhem para o contexto.
O poder local pode, à primeira vista, parecer pequeno e insignificante, mas a verdade é que os nossos autarcas são responsáveis por gerir quantidades substanciais do dinheiro dos contribuintes. Orçamentos de freguesias como a do Lumiar, por exemplo, chegam a superar os nove milhões de euros. No entanto, fora momentos pontuais que envolvam grandes escândalos, os assuntos autárquicos estão geralmente fora da cobertura dos media e, como consequência, da atenção da população. A consequência desta falta de mediatismo é que o poder local tende a ser menos escrutinado que os órgãos nacionais, o que abre a porta para que decisões lesivas do interesse da população passem despercebidas. De facto, de acordo com um relatório de 2023 do Mecanismo Nacional Anticorrupção, o poder local representa sensivelmente metade (48,5%) dos processos-crime sobre corrupção e infrações conexas. Ao apontarmos inconsistências e chamarmos a atenção para algo que parece não bater certo, estamos possivelmente a desatar uma teia de corrupção, incompetência, interesses instalados e motivações ocultas.
Com isto em mente, fica clara a razão por detrás das reações amarguradas e condescendentes. De facto, antes de cada insulto gratuito, de cada tirada paternalista e de cada sermão condescendente, veio uma pergunta incómoda, mas pertinente. "Para que servem estes fundos?", "Porque é que a despesa aumentou?", "Os fregueses estarão a ter os serviços públicos que merecem?". São perguntas como estas que vão ao cerne dos verdadeiros problemas — da manutenção do status quo, dos compadrios, dos tutti fruttis, e da falsa "estabilidade". As respostas tortas são a prova inequívoca de que a pergunta não só foi ouvida, como foi certeira.
Os resultados das autárquicas desde ano trouxeram com eles uma lufada de ar fresco. Agora, em todas as freguesias da cidade, e nos órgãos municipais, há autarcas liberais, muitos deles jovens. A estes deixo um apelo simples: não tenham medo. A política precisa de pessoas experientes tanto quanto precisa de vozes novas, que fazem perguntas que deixam até os decanos a dormir sobre o assunto. Os comodistas vão tentar jogar um jogo sujo? Certamente. Mas esse é o sinal que estamos precisamente a fazer a coisa certa.