Aqueles países têm memória, a Polónia mais do que todos. Por isso, a Polónia é o país europeu da NATO que mais gasta com defesa em percentagem do PIB.
Há uns tempos, num curso de vela, cheguei ao Seixal. Além de mim, estavam a bordo dois outros portugueses, um inglês, uma ucraniana e uma polaca. Esta última ficou lívida quando viu, ainda o barco não tinha atracado, a foice e o martelo, exuberantes, afixados na esquina de um singelo, mas elegante, edifício amarelo-claro frontal ao rio, como que a avisar os visitantes de que estavam a chegar a um feudo de saudosistas das ditaduras comunistas do século XX do leste da Europa.
“Este símbolo é permitido aqui?”, perguntou-me. Fiquei a saber que na Polónia tanto a foice e o martelo como a cruz suástica são proibidos. Para ela, ver o símbolo comunista era como ver o ícone do nacional-socialismo dos trabalhadores alemães. Ou era como seria para nós, portugueses, vermos o símbolo nazi numa parede. No entanto, em Portugal, a foice e o martelo passam como se nada fossem. De facto, os portugueses, tirando as peripécias de 1975, nunca sofreram o comunismo na pele. Os comunistas, eles próprios, foram branqueados e são tidos por indivíduos respeitáveis, algo alienados, talvez, mas respeitáveis e com nomes de ruas.
Uma vez dirigi a Ricardo Araújo Pereira uma questão armadilhada, que era a de que, se ele apreciava a liberdade de expressão – e eu acredito que aprecie –, por que razão votava PCP, que despreza profundamente a liberdade, e a de expressão em particular. Ele respondeu-me o óbvio: que votava PCP “apesar de” este partido odiar a liberdade, porque defendia os trabalhadores e coisas quejandas. Enfim, foi a resposta clássica (apesar de, digo eu, o PCP defender apenas os trabalhadores instalados, e não quem procura emprego).
Mas adiante. Estamos a anos-luz da experiência que os países limítrofes da União Soviética sofreram no século passado, os polacos em especial.
Mais do que quaisquer outras nações europeias, os países do Báltico – Estónia, Letónia, Lituânia, Finlândia e Polónia – sofreram o leque completo de horrores do século XX. Geograficamente aprisionados entre nazis e comunistas, estes países assumem-se agora como os primeiros defensores dos valores europeus, conquistados após lutas duras e sangrentas. Sofreram as consequências da revolução bolchevique e das guerras civis que se lhe sucederam. Após um breve período de independência entre as Grande Guerras, foram ocupados por nazis e soviéticos, suportaram décadas de subserviência a Moscovo, e finalmente conseguiram libertar-se da dependência civilizacional e económica do totalitarismo soviético.
A Finlândia, em particular, resistiu surpreendentemente ao Exército Vermelho de Estaline em 1939-40. (Essa aparente fragilidade soviética encorajou Hitler a quebrar o pacto com Estaline e a invadir a URSS enquanto esta se encontrasse militarmente frágil, num gigantesco erro de cálculo, como se sabe.) A Finlândia perdeu parte do território (até hoje), mas manteve a sua independência ao manter uma posição de neutralidade durante a Guerra Fria. Esta situação mudou radicalmente com a invasão da Ucrânia pela Federação Russa, e a Finlândia, a par da Suécia, aderiu à NATO.
Aqueles países têm memória, a Polónia mais do que todos. Por isso, a Polónia é o país europeu da NATO que mais gasta com defesa em percentagem do PIB (4,12% em 2024). A Espanha é o país que gasta menos (1,28%). Pedro Sánchez, numa proverbial manifestação de solidariedade, afirmou, mais ou menos por estas palavras, que não estava a ver os tanques russos a atravessar os Pirenéus (Financial Times, 13 de março de 2025). Daí pretender, pretender contabilizar os esforços para reduzir as emissões de carbono, a resposta às alterações climáticas, a cibersegurança e o combate ao terrorismo como sendo gastos em defesa. Nada de surpreendente. Os russos estão longe. Os horrores do comunismo também. Daí a cruz e o martelo, orgulhosos e despudorados, no Seixal.