Não me identifico com nenhum dos dois candidatos que passaram à segunda volta e recuso-me a entrar no discurso que estamos a escolher entre a democracia ou outra coisa qualquer. Associar à política esta lógica de que temos sempre que ter uma opinião muito forte sobre todo e qualquer tema, ou que temos que apoiar incondicionalmente um qualquer candidato é, a meu ver, o desvirtuar do pensamento crítico e da oferta de novas soluções.
Para alguém que confiou o seu voto em João Cotrim de Figueiredo, acredito que possa ser difícil escolher um candidato para apoiar na segunda volta entre António José Seguro e André Ventura e por isso votar em branco é uma decisão legítima e que reflete o sentimento de orfandade política (sentimento esse que vimos existir aquando do crescimento da IL e do Chega e diminuição da abstenção).
Considerando a distância ideológica entre o liberalismo e os perfis dos dois candidatos, aqui estão 4 motivos que me faz considerar o voto em branco:
1. Rejeição do Estatismo vs. Populismo Económico
Para um eleitor que votou em João Cotrim de Figueiredo, nenhum dos candidatos oferece uma visão de Estado Mínimo, eficiente e com foco no futuro.
– António José Seguro representa a social-democracia tradicional e o peso do Estado na economia, na saúde e na educação, algo que colide com a agenda de privatizações e redução de impostos dos liberais.
– André Ventura, embora use retórica de direita, defende frequentemente medidas protecionistas ou intervenções estatais (como em pensões ou subsídios específicos) que os liberais consideram “populismo fiscal” irresponsável.
2. A Ausência de uma Agenda Reformista e visão para o País
Cotrim de Figueiredo pautou a sua candidatura pela necessidade de reformas estruturais profundas (sistema eleitoral, justiça, carga fiscal, tecnologia, futuro, ambição, etc).
– Seguro é visto como um “homem do sistema” que privilegia a estabilidade institucional em vez da rutura reformista.
– Ventura foca-se em reformas constitucionais de cariz autoritário ou punitivo (como a castração química, prisão perpétua ou a expulsão de imigrantes), que são opostas à matriz de liberdades individuais e garantias jurídicas defendidas pelos liberais.
3. Conflito com os Valores Éticos e Institucionais
O voto em branco pode ser uma forma de preservar a coerência moral:
– Votar em Ventura seria validar um estilo de política baseado no confronto e na estigmatização de minorias, algo que o liberalismo humanista rejeita.
– Votar em Seguro seria apoiar o regresso de uma hegemonia do PS (mesmo que numa ala diferente da de Pedro Nuno Santos), que os liberais culpam pela estagnação económica do país.
4. Protesto contra a Polarização Vazia
A segunda volta entre estes dois candidatos pode ser interpretada como uma escolha entre o “medo do radicalismo” (Seguro) e a “revolta contra o sistema” (Ventura).
– Para quem votou em Cotrim a política deve ser sobre dados, factos, eficiência, liberdade e progresso, não sobre guerras culturais ou clubismo partidário. O voto em branco sinaliza que nenhum dos candidatos apresentou propostas tecnicamente sólidas para o crescimento económico, desenvolvimento do país e resolução de problemas estruturais existentes há décadas.
Ao não escolher nenhum dos dois, o eleitor reforça que o espaço liberal não é um satélite da direita populista nem um aliado tático da esquerda moderada. Provando assim existir um espaço a ser explorado por um novo agente político (moderado) que, sabendo aproveitar bem os próximos anos, tem tudo para poder crescer mostrando coerência, ambição e vontade de resolver os problemas reais das pessoas.