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Menos sangue, Mais esperança

Opinião de João Simões n'O DIABO
8 de maio de 2026 por
Menos sangue, Mais esperança
João Simões

Há datas que entram na História pelo ruído das armas, pelo peso da violência ou pela memória amarga das guerras entre irmãos. Outras, mais raras e por isso mais valiosas, afirmam-se precisamente pelo que conseguiram evitar. O 25 de Abril pertence a essa segunda categoria.

Num século europeu marcado por revoluções sangrentas, guerras civis e longas cadeias de vingança política, Portugal encontrou uma saída improvável para um regime esgotado: a mudança sem destruição generalizada, a rutura sem colapso nacional. Não foi um processo perfeito, nem puro, nem linear. Houve tensão, radicalização, medo e incerteza. Houve disputas sérias sobre o rumo do país. Mas foi uma transição em que a esperança falou mais alto do que o sangue.

Convém recordar o contexto. Portugal vinha de décadas de ditadura, de atraso económico, de isolamento internacional e de uma guerra colonial longa, cara e moralmente desgastante. As instituições mostravam fadiga. A sociedade acumulava silêncios, prudências e fraturas. Em muitos países, circunstâncias semelhantes abriram caminho ao caos. A Grécia dos coronéis saiu da ditadura com feridas que dividiram o país durante décadas. A transição espanhola custou negociações longas e uma memória histórica ainda hoje disputada. Os países do Leste europeu, depois de 1989, enfrentaram anos de instabilidade e ajuste de contas. Portugal não foi imune a nada disso, mas conteve-o.

Talvez por isso o símbolo mais duradouro dessa madrugada não seja uma arma, nem um uniforme, nem uma barricada. É uma flor. O cravo tornou-se imagem de algo mais profundo do que um gesto espontâneo. Tornou-se símbolo de contenção coletiva. De um povo que desejava mudar, mas que recusou perder-se na lógica da vingança. De militares que abriram uma porta em vez de fecharem o país num novo ciclo de medo.

Há quem prefira olhar para Abril apenas através das suas disputas posteriores. Como se tudo se resumisse aos excessos do PREC, às tentações revolucionárias ou aos receios de uma nova tutela autoritária. Esses capítulos existem e merecem estudo sério: as nacionalizações forçadas, a violência política do verão quente, as purgas nas instituições. Quem os ignora falsifica a História. Mas quem os usa para anular o todo revela apenas que nunca quis celebrar nada, só encontrar uma desculpa para não o fazer.

O essencial permanece: um regime caiu, uma guerra terminou, uma democracia começou a formar-se e o país evitou uma tragédia maior.

Hoje o 25 de Abril é tratado como propriedade de fações. Uns transformam-no em senha ideológica. Outros respondem com desdém ou cansaço ritual. Ambos empobrecem a memória nacional. A data pertence a todos os portugueses: aos que o viveram com entusiasmo, aos que desconfiaram, aos que nasceram depois e herdaram as suas consequências, boas e más. Nenhuma geração tem exclusividade sobre a liberdade. Nenhum partido tem escritura sobre a História.

Celebrar Abril não exige ingenuidade. A democracia portuguesa teve crises, clientelismos, promessas adiadas e desilusões conhecidas. Nenhum regime humano escapa à imperfeição. Mas reconhecer falhas não obriga a negar grandezas. E uma das grandezas de Abril foi mostrar que um povo pode mudar de destino sem se destruir a si mesmo.

Num tempo em que tantos confundem firmeza com brutalidade e mudança com destruição, talvez essa lição valha mais do que nunca. E por isso Abril continua a merecer não apenas celebração, mas gratidão.


Publicado originalmente n'O DIABO

Menos sangue, Mais esperança
João Simões 8 de maio de 2026
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