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Genocídios

Opinião de Armando Gonçalves Pereira no PÚBLICO
25 de setembro de 2025 por
Genocídios
Armando Gonçalves Pereira

Recomendo alguma parcimónia quando se recorrer ao vocabulário do genocídio como arma de arremesso político.


“O Hamas perderá no terreno, mas vencerá na opinião pública” Eyal Hulata (ex-Mossad)

No princípio era: não confundam o Hamas com o povo palestiniano. Ainda era recente o pogrom do 7 de Outubro, com as degolações, as violações, os raptos e o massacre de crianças dos kibutz. Depois a distinção desapareceu: o Hamas fundiu-se com o “povo palestiniano”, conceito que, curiosamente, não inclui judeus, que são tão palestinianos como os outros.

No princípio tinha-se o cuidado de realçar que certas notícias de Gaza tinham o Hamas como fonte (“segundo o Hamas”). Depois passou a aceitar-se como válidas todas as notícias que vêm de Gaza.

Entretanto, os reféns que o Hamas se recusa a libertar – obviamente, porque o seu interesse é prolongar a guerra e o sofrimento dos civis palestinianos para conquistar a simpatia ocidental – foram esquecidos.

Agora a ONU, uma organização falida moral e financeiramente, reconhece que o se passa em Gaza é um “genocídio”.

Quem se cala é cúmplice, como foram cúmplices os que se calaram perante o Holocausto, dizem, num paralelismo não ingénuo – mas esquecendo que a ideologia do Hamas é directamente bebida do Mein Kampf.

Neste ponto, impõe-se uma clarificação, para dar alguma sanidade intelectual à discussão.

O termo “genocídio”, explica-nos Paolo Fonzi no recentíssimo Genocidio. Una storia politica e culturale (publicado em italiano pela editora Laterza, a merecer tradução em português), foi cunhado no pós-II Guerra Mundial pelo jurista polaco Raphael Lemkin. Este facto recorda-nos que a palavra, não obstante ser parte integrante do jargão político e usada com declinações e intenções diversas por parte dos actores políticos mais variados, é um neologismo recente. Convém precisá-lo.

Os actos classificados como genocídio são os “cometidos com a intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso”, refere o artigo 2.º da Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio, de 9 de Dezembro de 1948. Por pressão da então União Soviética, os grupos políticos não foram incluídos.

Isto significa que, do ponto de vista jurídico, para além dos actos em si, é necessária uma intenção específica de destruir o grupo em questão – uma “mens rea”, como dizem os juristas.

Desde a celebração da Convenção, houve vários candidatos ao epíteto de “genocídio”: o extermínio dos arménios pelos turcos em 1915, a expulsão dos gregos da Ásia Menor em 1914-1923, a fome ucraniana provocada por Estaline em 1932-1933, a expulsão de cerca de 12 milhões de alemães da antiga Prússia oriental pelos Soviéticos no final da II Guerra, o massacre de 21% da população do Camboja pelos Khmers Vermelhos de Pol Pot, os massacres da ditadura militar do Uganda de Idi Amin Dada entre 1971 e 1979, as “limpezas étnicas” na ex-Jugoslávia durante os anos noventa, o massacre de pelo menos 800 mil tutsis pelos hutus no Ruanda entre Abril e Julho de 1994, a violência contra a população civil do Darfur por parte do governo do Sudão…

Em todos estes casos a tentativa os qualificar como genocídio foi polémica. Por exemplo, o Parlamento Europeu, em 2008, limitou-se a reconhecer os milhões de mortos da fome na Ucrânia como um tremendo crime contra o povo ucraniano e a humanidade, mas não como um genocídio.

Não é necessário que “especialistas em genocídio” (estranho conceito este) se pronunciem sobre o que se passa em Gaza. Basta olhar à letra da Convenção. Não existe, neste conflito, a intenção da parte de Israel de “destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso” em Gaza. Israel está a levar a cabo uma guerra, necessariamente “desproporcionada”, contra terroristas que ameaçam a sua própria existência em sete frentes diferentes: Gaza, Líbano, Cisjordânia, Síria, Iraque, Iémen e Irão.

Recomendo alguma parcimónia quando se recorrer ao vocabulário do genocídio como arma de arremesso político. Caso contrário, acabaremos como Putin, que, quando invadiu a Ucrânia, em Fevereiro de 2023, afirmou que o fazia para “proteger as pessoas que por oito anos tinham sofrido abusos e o genocídio por parte do regime de Kiev”. A mesma motivação de travar um genocídio em curso tinha já sido apresentada pela Rússia em 2008 para justificar a invasão da Geórgia.

Sou sensível, com reservas, à argumentação de Rashid Khalidi, quando afirma que a história de Israel é a de “uma guerra colonial travada contra a população nativa (…) para a obrigar a entregar a sua terra a outro povo contra a sua vontade.”

Por outro lado, o apoio às vítimas palestinianas e as críticas ao Governo de Netanyahu são legítimos e necessários numa democracia. Outra coisa é demonizar o sionismo.

O mais importante a realçar aqui é que o Hamas representa uma cultura de ódio anti-semita (muito mais do que anti-sionista), de obscurantismo e opressão, que promove a queima pública de livros (como aconteceu recentemente com o Diário de Anne Frank), e que defende sem complexos a exterminação de Israel e dos judeus. Isso sim, é um genocídio.


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