Segurada pela diplomacia de Rutte, a Europa deve aproveitar o abrigo que ainda lhe é atribuído para construir, com tempo, racionalidade e eficácia, a sua própria capacidade de defesa.
Há momentos na História em que o valor de um líder não se mede pela grandiosidade da sua visão, mas pela sua capacidade de evitar o desastre. Mark Rutte tem sido, acima de tudo, isso mesmo: um gestor de equilíbrios num tempo em que o mundo parece estar a perder racionalidade.
Num contexto internacional marcado pela imprevisibilidade e, em particular, por um regresso de Donald Trump ao centro da política americana, a Europa encontra-se perante um dilema existencial. Por um lado, continua dependente do garante último de segurança proporcionado pelos Estados Unidos. Por outro, percebe cada vez mais que essa dependência é, em si mesma, uma fragilidade estratégica.
É neste espaço estreito, quase claustrofóbico, que a diplomacia de Rutte tem operado.
Acusado por alguns de excessiva deferência perante Washington, o antigo primeiro-ministro neerlandês tem, na verdade, desempenhado um papel menos vistoso, mas essencial: o de manter aberta a linha de comunicação, preservar a confiança mínima e evitar ruturas irreparáveis na Aliança Atlântica. Num tempo em que a política externa americana oscila ao sabor de impulsos internos e de cálculos eleitorais, essa função é tudo menos menor.
Convém sermos claros: a NATO continua a ser o pilar central da defesa europeia. Não por escolha ideológica, mas por necessidade prática. A Europa, apesar de décadas de integração, não construiu ainda uma capacidade militar autónoma, nem tão pouco capacidade financeira, que lhe permita dispensar o apoio americano. Se formos pragmáticos reconhecemos que ignorar este facto não seria apenas ingénuo, mas acima de tudo perigoso.
Compreender esta dependência não implica, no entanto, aceitá-la como destino.
A guerra na Ucrânia, a instabilidade no Médio Oriente e a crescente assertividade de potências como a China demonstram que o mundo entrou numa fase de competição estratégica prolongada. Neste contexto, uma Europa incapaz de se defender a si própria será sempre um ator secundário e, pior ainda, um ator fraco, vulnerável.
É por isso que a discussão sobre um exército europeu comum deixou de ser uma abstração federalista e deve constituir uma necessidade prática, real.
Não se trata de substituir a NATO, nem de romper com os Estados Unidos. Trata-se, sim, de complementar essa aliança com uma capacidade europeia real e credível. Uma possível via passaria pela criação de uma ala europeia da NATO, com integração progressiva de meios e comando conjunto. Cada Estado-membro alocaria uma percentagem das suas forças armadas a este corpo europeu, garantindo interoperabilidade, rapidez de resposta, escala, força e dissuasão.
Mais do que uma questão militar, trata-se de soberania.
A Europa precisa de investir em infraestruturas críticas próprias, desde a indústria de defesa à cibersegurança, passando pela autonomia energética e tecnológica. Uma união política que depende estruturalmente de terceiros para garantir a sua segurança dificilmente poderá afirmar-se como um verdadeiro polo de poder.
Bem sabemos, no entanto, que este caminho levará tempo. Tempo político, tempo financeiro, tempo estratégico.
Até lá, é imperativo preservar o que existe.
A Europa precisa, simultaneamente, de ambição e de prudência. Por um lado, ambição para ir construindo a sua autonomia estratégica. Por outro, prudência para não destruir, no processo, as alianças que ainda garantem a sua segurança.
É aqui que se compreende, uma vez mais, o papel que Mark Rutte tem vindo a desempenhar. Num ambiente onde a tentação de ruturas abruptas cresce – seja por impulsos nacionalistas europeus, seja pela volatilidade americana – a abordagem cautelosa que tem vindo a impor revela-se não como fraqueza, mas como lucidez. Conter danos, manter pontes, evitar escaladas desnecessárias.
É, no fundo, uma forma de liderança que raramente faz manchetes, mas que frequentemente evita crises. E talvez seja precisamente por isso que incomoda tanto quem prefere respostas simples para problemas complexos.
A alternativa seria um enorme salto no escuro, de uma imprevisibilidade tal só igualada por aquela que já se vive do outro lado do oceano, o que apenas serviria para incendiar e agravar um cenário já, por si só, frágil.
O papel de Mark Rutte é, assim, tão ingrato quanto indispensável. Preservar o papel da NATO e manter os EUA comprometidos com a nossa defesa é a tábua de salvação do presente. E engolir sapos diplomáticos perante Donald Trump não é falta de dignidade. É, sim, a suprema responsabilidade de quem sabe que a sobrevivência da Europa livre depende dessa aliança.
Segurada pela diplomacia de Rutte, a Europa deve aproveitar o abrigo que ainda lhe é atribuído para construir, com tempo, racionalidade e eficácia, a sua própria capacidade de defesa. Só assim poderemos continuar a preparar e a olhar para o futuro.