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A capitulação da III República

Opinião de Pedro Bugarín no Expresso
27 de janeiro de 2026 por
A capitulação da III República
Pedro Bugarín

A janela, derradeira, de oportunidade de eleger um Presidente capaz de fazer frente a Ventura e apoiar uma política reformista que fortalecesse a República fechou-se no terceiro lugar de Cotrim de Figueiredo


A data de 18 de Janeiro de 2026 marcará o ínicio de uma nova era; o tempo em que Portugal entrará num novo ciclo histórico que altera estruturalmente o equilíbrio político-partidário que conhecíamos desde 1975.

A escolha que os portugueses terão de fazer na 2ª volta da eleição presidencial não será mais que um movimento de resistência, votando em Seguro, que será o futuro Presidente da República, não por convicção, de ninguém, mas pela escolha de um mal menor.

A recusa do ataque à democracia liberal preconizada por Ventura irá refugiar-se sob a proteção de um Presidente fraco, sem ideias, sem ambição, incapaz de apoiar as reformas estruturantes de que Portugal tem sede, empurrando, lentamente, o país para um beco sem saída. A era da polarização política chegou finalmente a Portugal.

A partir de agora, Ventura irá comprimir a direita democrática encostando a AD à sua própria incapacidade reformista e a AD irá definhar pouco a pouco até se tornar uma não alternativa de coisa nenhuma. Do lado oposto, as esquerdas unir-se-ão vociferando contra o fascismo incapazes de apresentar uma solução de governo capaz e a sua radicalização irá aprofundar a polarização política.

Portugal ficará refém, muitos anos, da sua falta de coragem em reformar, em ambicionar sem medo ser um país soberano. Soberano na liberdade de escolha, soberano na exigência para com a sua classe política, soberano na construção do seu próprio destino que ficará por muito tempo entregue a escolhas polarizadas de mal menor adiando longamente o futuro que é urgente.

Portugal será como definiu Torga; esse país indignado, que «.. moureja o dia inteiro indignado, come, bebe e diverte-se indignado, mas não passa disto. Faltando-lhe o romantismo cívico da agressão. Seremos socialmente, uma coletividade pacífica de revoltados». Todos gritarão e ninguém terá razão. À mais pequena destabilização económica ou dos equilíbrios finos da geoestratégia que o mundo atravessa, Portugal irá tropeçar sobre si próprio e cair.

Os resultados eleitorais da primeira volta das presidenciais são um pronuncio do fim da III República Portuguesa.

A janela, derradeira, de oportunidade de eleger um Presidente capaz de fazer frente a Ventura e apoiar uma política reformista que fortalecesse a República fechou-se no terceiro lugar de Cotrim de Figueiredo. A AD, naquele que foi porventura o maior erro político da sua história, foi incapaz de colocar os interesses do país à frente dos interesses dos seus pequenos interesses. A fatura será elevadíssima e pode custar-lhe a vida.

Cotrim de Figueiredo pela sua visão clara para o país, pelo campo ideológico de onde é natural, pela coragem política que sempre demonstrou, materializou a única candidatura do espaço liberal e de centro-direita capaz de derrotar as ideias de Ventura. Sim, essa luta cabe ao centro direita, cabe aos liberais, cabe a todos aqueles que acreditam num país soberano em Liberdade, livre de autoritarismos, socialismos e conformismos.

Estas ideias, nefastas para o país e para a sua ambição de futuro, só serão eficazmente combatidas a partir de uma ideia de Liberdade ampla e inequívoca a partir do centro direita liberal. A esquerda não servirá este combate porque se irá acantonar nos grandes princípios ideológicos, mas incapaz de fugir à armadilha da polarização.Os amantes da liberdade vão viver tempos difíceis!

De um lado e outro da barricada intolerante que se irá adensar, os defensores da democracia liberal ver-se-ão permanentemente confrontados e acusados de não tomar partido por um dos lados da contenda. A narrativa tomou o seu espaço na noite eleitoral.

António José Seguro receberá o voto dos democratas e será eleito Presidente, mas não será amado por ninguém e não saberá resistir ao tsunami que o aguarda. Como Rómulo Augusto, último imperador romano do Ocidente, de que não reza a história nem a memória, Seguro será o ocaso da III República.

Mas, tal como na caixa de Pandora, que, ao ser aberta libertou todos os males e sofrimentos humanos viu sair, no final de tudo, timidamente, a virtude da Esperança, também nós, aqueles que acreditamos que ainda é possível um país diferente, resistiremos às tentações da polarização e do conformismo, respondendo com lucidez, ambição e coragem aos desígnios de um Portugal maior!

Tal como afirmou tão claramente Cotrim de Figueiredo no seu discurso na noite eleitoral, o caminho está aberto para quem agora o quiser trilhar.


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Pedro Bugarín 27 de janeiro de 2026
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